“Estamos em pleno mar”, diz o primeiro verso do poema Navio Negreiro, escrito por Castro Alves em 1868. No ano de sua escrita, ainda que a Lei Eusébio de Queirós – promulgada no Brasil em 4 de setembro de 1850 – proibisse o tráfico de escravos em terras brasileiras, a escravidão da população negra ainda era uma realidade aceita e naturalizada no país. Apenas duas décadas depois do verso ganhar forma que o Brasil – ainda sob a insígnia de um Império – assinaria a abolição da escravatura, libertando de forma irrestrita todos os humanos cativos em seu território. Em 13 de maio de 1988, a princesa Isabel – então monarca regente – assina a Lei Áurea, simbolizando o fim da escravidão e o estabelecimento de relações livres de trabalho. O que a lei promulga e o que a História revela, entretanto, nem sempre possuem ângulos compatíveis. Às vezes, mesmo no presente, certos navios continuam navegando. Seus porões, com todas as suas feridas, seguem abertos.
“Estamos em pleno mar” também é uma frase presente no espetáculo Negreiros: Histórias que a História não conta, do Grupo Teatral Leva Eu, de Viamão (RS). Simbólico e sintomático, o verso extraído da obra de Castro Alves sugere – tal como o próprio trabalho do grupo viamonense – que ainda estamos navegando por águas muito próximas de um mar pretérito. Pois, se já se passaram 136 anos da abolição da escravatura no Brasil, o racismo estrutural no qual a sociedade brasileira foi forjada se faz presente em praticamente todos os aspectos de nossa vida política e social. Não obstante, o espetáculo aborda justamente esta intersecção entre presente e passado, refletindo sobre a condição do negro no Brasil através de questões contemporâneas que se fundamentam em aspectos históricos de nossa formação cultural. Deste modo, temas como tráfico de pessoas, trabalho análogo à escravidão na contemporaneidade, diáspora africana e fluxos migratórios, violência policial, entre outros temas, estruturam-se em um emaranhado dramatúrgico que conta, reflete e denuncia.



